Em agosto de 2025, os Estados Unidos reforçaram sua presença militar no Caribe sul, deslocando sete navios de guerra, incluindo um submarino nuclear de ataque e cerca de 4.500 militares — entre eles, 2.200 fuzileiros navais — para as proximidades da Venezuela.
Oficialmente, Washington alega que a operação tem como objetivo combater o tráfico de drogas e desmantelar o chamado “Cartel dos Soles”, que teria vínculos diretos com o presidente Nicolás Maduro. A iniciativa, contudo, foi rapidamente interpretada como um ato de pressão política e recordou práticas históricas de intimidação marítima conhecidas como “diplomacia das canhoneiras”.
Esse conceito, que remonta ao século XIX, descreve o uso da força naval para impor interesses estratégicos sem necessariamente deflagrar um conflito aberto. Foi assim que o comodoro Matthew Perry forçou a abertura do Japão ao comércio internacional em 1854 e também como os Estados Unidos intervieram repetidas vezes na América Latina para defender seus interesses econômicos. Hoje, a lógica permanece: a exibição de poder militar em águas internacionais busca influenciar decisões políticas de um governo adversário sem disparar um único tiro.
A presença norte-americana diante da costa venezuelana se encaixa nessa tradição. Os destróieres equipados com o sistema Aegis e mísseis de cruzeiro Tomahawk, somados à mobilidade dos fuzileiros a bordo, representam mais que uma força de combate: funcionam como instrumento de coerção diplomática. Analistas acreditam que os navios podem estabelecer bloqueios marítimos, realizar operações de inteligência, aplicar ataques cirúrgicos contra alvos estratégicos ou até conduzir operações especiais rápidas para deter figuras do regime. Ainda que Washington não declare uma intenção de invasão, a movimentação envia um recado claro a Caracas e amplia a pressão sobre Maduro.

O presidente venezuelano reagiu de imediato. Convocou 15 mil soldados para a fronteira com a Colômbia, reforçou a retórica nacionalista e pediu à população que se prepare para defender o “solo sagrado” contra uma eventual agressão imperialista. Além das forças regulares, Maduro conta com a mobilização de milícias civis, estimadas em milhões de integrantes, e ordenou a intensificação de patrulhas costeiras com navios, drones e meios aéreos. Paralelamente, usa a ameaça externa como ferramenta política interna, reforçando sua imagem de líder sitiado que resiste a uma conspiração estrangeira.
No fundo, a disputa vai além do combate ao narcotráfico. A operação naval norte-americana expõe uma estratégia de coerção que busca desestabilizar o regime venezuelano e, ao mesmo tempo, reafirmar o poder de projeção dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Maduro, por sua vez, aposta na narrativa de soberania e resistência para consolidar apoios domésticos e tentar dissuadir qualquer escalada. O resultado é um cenário tenso, que remete às antigas práticas da diplomacia das canhoneiras, agora em versão do século XXI, com mísseis de longo alcance, submarinos nucleares e batalhões de fuzileiros prontos para atuar a poucas milhas da costa venezuelana.■
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