Empresário indiciado por matar gari tinha ‘fascínio’ por armas e cargo da esposa delegada, diz polícia


Câmera registra momento em que gari cai no chão logo após ser baleado em BH
O empresário Renê da Silva Nogueira Júnior, acusado de matar o gari Laudemir de Souza Fernandes após se irritar no trânsito, tinha “fascínio” por armas e pelo cargo de sua esposa, a delegada Ana Paula Lamego Balbino Nogueira. Segundo a Polícia Civil, a servidora sabia que o marido usava os armamentos dela com frequência.
Renê foi indiciado nesta sexta-feira (29) e deverá responder por homicídio duplamente qualificado, porte ilegal de arma e ameaça. Ana Paula deve responder criminalmente por emprestar suas armas a ele (leia mais abaixo).
“Foi amplamente apurado nas investigações que ele tinha um fascínio pelo poder que o armamento o concedia. Então, acreditamos que, na situação em que ele disparou contra o Laudemir, ele estava demonstrando um poder, porque ele julgou que a pressa que ele tinha era mais importante do que o trabalho dos garis na coleta de resíduos”, disse o delegado Evandro Radaelli.
Conforme os investigadores, análises dos celulares do casal revelaram imagens de Renê exibindo e disparando armas. A polícia acredita que esses conteúdos possivelmente foram compartilhados com pessoas de seu convívio.
“Nós tivemos acesso a algumas imagens em que ele exibiu armas de fogo, vídeos em que ele dispara com uma arma de fogo antiga, não necessariamente essa do caso. Ele tinha um fascínio até mesmo pelo cargo que a esposa ocupa. Tivemos acesso a imagens em que ele exibiu o distintivo da esposa”, completou Radaelli.
O empresário Renê da Silva Nogueira Júnior, casado com a delegada Ana Paula Balbino Nogueira, foi preso pela morte do gari Laudemir de Souza Fernandes
Reprodução/Redes sociais
Indiciamento
O crime aconteceu no último 11 de agosto, no bairro Vista Alegre, na Região Oeste de Belo Horizonte. Em coletiva de imprensa, o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) deu detalhes sobre a conclusão das investigações. Veja os principais pontos do inquérito policial:
Provas testemunhais, interrogatório do investigado, perícias técnicas, análises de imagens de câmeras de segurança, informações fornecidas pela montadora do carro de Renê e dados do celular dele confirmaram a autoria do crime.
O empresário foi indiciado por homicídio qualificado, por motivo fútil e com recurso que dificultou a defesa do gari Laudemir Fernandes, ameaça contra a motorista que dirigia o caminhão de lixo e porte ilegal de arma de fogo de uso permitido. Se condenado após julgamento, a pena pode chegar a 35 anos de prisão.
Com base na extração de dados do celular de Renê, os investigadores concluíram que o empresário realizou diversas pesquisas referentes às consequências do crime e desqualificaram o depoimento que ele deu sobre “não pensar que o disparo atingiu alguém”.
Ainda com base nas informações do aparelho, a Polícia Civil descobriu que a delegada sabia que o empresário fazia o uso da arma dela com constância e que estava com o armamento no dia do crime. Para os investigadores, ele demonstrava “fascínio” em estar armado.
A mulher também foi indiciada por porte ilegal de arma de fogo, em razão de estar previsto na lei o ato de “ceder” ou “emprestar”. A pena para o crime varia de dois a quatro anos de prisão, podendo aumentar em até 50% pelo fato de ela ser servidora pública.
Não foi possível confirmar se a delegada sabia do homicídio. “Há várias mensagens apagadas no celular dele. Isso dificultou essa conclusão sobre a ciência dela ou não da prática criminosa”, explicou o delegado Matheus Marques.
Depois do indiciamento, o Ministério Público analisará o caso para, eventualmente, denunciar os investigados à Justiça. Se a denúncia for aceita, os acusados viram réus e serão julgados.
Relembre o caso
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De acordo com a polícia, Renê da Silva Nogueira Júnior, de 47 anos, ficou irritado com o caminhão de coleta de lixo que bloqueava a rua e ameaçou a motorista do veículo. Quando os garis tentaram intervir, ele desceu do carro armado e atirou. Laudemir Fernandes, de 44, foi atingido com um tiro e não resistiu aos ferimentos.
A arma usada no crime pertencia à esposa do empresário, a delegada Ana Paula Lamego Balbino Nogueira. Ela passou a ser investigada pela Subcorregedoria da Polícia Civil, foi afastada das funções por 60 dias para tratamento de saúde e, agora, indiciada por emprestar o armamento ao marido.
Renê foi preso em flagrante no mesmo dia do crime, em uma academia no bairro Estoril. Inicialmente, ele negou o crime, mas depois confessou em depoimento. Em carta escrita na prisão, o empresário chamou o ocorrido de “acidente” e “mal-entendido”.
A filha de Laudemir, uma adolescente de 15 anos, entrou com uma ação judicial pedindo indenização de R$ 500 mil por danos morais, pensão alimentícia e custeio de tratamento psicológico. A defesa também solicitou o bloqueio de até R$ 3 milhões em bens do empresário e da delegada para garantir o pagamento da indenização.
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Arte/g1
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