Indígenas fazem faculdade na Ufes para manter cultura e ensinar nas aldeias

Foto: Arquivo pessoal

Você verá nesta reportagem:

  • População indígena na universidade
  • Como é a rotina de estudos
  • Pertencimento e representatividade
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“Eu quero terminar o curso e voltar para a minha aldeia como professor”. A frase dita por Ariberto Xavante, da etnia xavante, representa o desejo de muitos dos jovens indígenas que ingressam no ensino superior brasileiro.

Aldeados e não aldeados escolhem as salas de aula como um novo espaço de luta e resistência. Ao mesmo tempo que a graduação se mostra uma fonte de novos saberes, ela também se torna uma ferramenta para manter viva a cultura e as tradições de seus povos.

População indígena na universidade

Segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, o Brasil conta com uma população indígena de 1.693.535, 0,8% do total. Já no território capixaba, de acordo com o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), correspondem a 0,4% da população total, ou seja, 14.410 pessoas. Aracruz é onde está concentrada a maioria.

Dados do Censo de Educação Superior do Ministério da Educação do mesmo ano apontaram que cerca de 70 mil alunos autodeclarados, de diversas etnias, estavam matriculados em instituições em graduações públicas ou privadas.

No Espírito Santo, Ariberto e outros 38 indígenas aldeados fazem parte da Licenciatura em Pedagogia Intercultural Indígena (PIIndi), oferecida pelo Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em parceria com o Movimento Indígena do Estado. Tupinikins,(Tupinikim) guaranis (Guarani), xavantes (Xavante) e pataxós (Pataxó) formam a primeira turma do curso, iniciada em setembro de 2024.

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Com duração de quatro anos, o curso funciona em regime de alternância entre Tempo Universidade (TU) — período com a presença de professores, podendo acontecer em diferentes espaços — e Tempo Aldeia (TA) — dentro das comunidades e territórios indígenas.

O objetivo do PIIndi, segundo a própria instituição educacional, é formar professores indígenas, com enfoque intercultural, para exercer funções de docência na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, além de atuarem na gestão escolar e na gestão de projetos de etnodesenvolvimento do território.

O curso concentra a maioria dos alunos indígenas matriculados na Ufes no primeiro semestre de 2025. Segundo a Universidade, são 39 matriculados no curso, 28 da segunda turma do PROLIND — Programa de Apoio a Formação Superior e Licenciatura Indígena, não associado ao centro de educação — e 30 distribuídos em outros cursos, como direito, engenharias, artes e história.

Os números mostram uma evolução no ingresso de pessoas indígenas no ensino superior público capixaba, já que, desde 2003, o total de formados autodeclarados na Ufes é de 154 estudantes.

Ariberto é quem percorreu o caminho mais longo até chegar ao Campus da Ufes. Natural do Mato Grosso, foi o interesse pelo ensino e a vontade de tornar a educação mais acessível em seu território, que fizeram com que estivesse disposto a passar o maior tempo, até então, fora da sua aldeia.

Eu quis fazer o curso porque no meu território é muito difícil a área de ensino superior de etnocultura indígena. Eu quero terminar o curso e voltar para a minha escola como professor.

Ariberto, estudante da PIIndi

Graduação indígena na UFES
Ariberto faz parte da etnia xavante, predominante na região Centro-Oeste do País (Foto Thiago Soares/Folha Vitória)

Mas a distância não foi a única barreira para Ariberto. A comunicação também se mostrou um desafio, já que, nas aldeias xavantes, a língua predominante é o Xavante — ou A’uwe — o que não facilitou a adaptação ao curso ministrado completamente em português.

Segundo Fernanda Camargo, coordenadora do Curso de Pedagogia Intercultural Indígena, foi uma surpresa receber o xavante na turma, mas Ariberto tem se adaptado aos poucos à nova realidade.

Nós abrimos o edital para o Brasil inteiro, sem limitação geográfica e o resultado nos surpreendeu. Quando avaliamos as provas, é que vimos um candidato xavante, de Mato Grosso, entre os aprovados. Apesar das dificuldades, é notável a diferença na compreensão e comunicação. Foi difícil, mas conseguimos nos adaptar.

Inicialmente, de acordo com a coordenadora, Ariberto retornava ao seu estado natal após o Tempo Universidade, um caminho de dias, mas a rotina se tornou insustentável. Neste semestre, ele optou por ficar hospedado em Aracruz, entretanto, estar longe da sua aldeia também tem cobrado seu preço.

“Está esgotando as forças dele, porque são formas de fazer e saber diferentes. No fim deste semestre, ele volta para sua aldeia, para se recompor e voltar novamente”, complementou Fernanda.

Foto: Arquivo pessoal

Rotina de estudos

Ariberto não é o único entre os alunos que precisou se adaptar a uma rotina e um ambiente diferente do habitual. Géssica Martins, coordenadora local do curso na Ufes e secretária do curso, explicou que a turma viaja por quase duas horas, das aldeias de Aracruz à Universidade, nos dias de atividades no Campus Goiabeiras.

“Inicialmente, pensamos em fazer um mês e meio de Tempo Universidade, sem interrupção. Mas começamos a reconsiderar por que onde eles fariam seus rituais? Onde eles ficariam hospedados, como eles lidariam com tanto tempo dentro da Universidade?”

Por fim, a decisão foi reduzir o tempo dentro da universidade para uma semana por mês, o que dependendo da necessidade, pode acontecer no Campus Goiabeiras, no Campus São Mateus, no Campo Alegre, na Base Oceanográfica (Aracruz) ou em outro espaço determinado.

Graduação indígena na UFES
Foto Thiago Soares/Folha Vitória

Além das salas de aulas dentro da instituição, as aldeias também se tornaram um espaço de ensino. A estrutura curricular define que TA é o momento de contextualização e de integração dos conteúdos abordados durante o Tempo Universidade, com elaboração das produções acadêmicas previstas nas disciplinas.

Em determinados momentos do curso, uma dupla alternada de professores — incluindo sempre um indígena — viaja até uma das aldeias capixabas, para ministrar atividades no local. Gefferson Pereira Marques, coordenador local no Território Indígena em Aracruz, é o responsável por organizar a logística e acompanhar os encontros.

Como indígena, pertencente a uma aldeia tupinikim, Geferson é o elo de comunicação entre a coordenação do curso, as lideranças indígenas e as escolas das aldeias onde os encontros acontecem.

É um anseio das lideranças e dos próprios aldeados que os educadores sejam também indígenas. Meu papel é cuidar da logística que envolve as atividades do curso dentro das aldeias, para garantir, que no futuro, nossas crianças sejam ensinadas pelo nosso povo.

Gefferson Pereira Marques, coordenador.

Pertencimento e representatividade

Graduação indígena na UFES
Vânia tem como nome indígena Terrauê, que significa Chuva Sagrada. (Foto Thiago Soares/Folha Vitória)

Para Vânia, uma das alunas do curso, a falta de representatividade entre os professores nas aldeias foi sentida na pele desde cedo. A mineira, que tem como nome indígena Terreauê — que significa chuva sagrada — é da etnia pataxó, mas se mudou para uma das aldeias tupinikins capixabas em busca de melhores oportunidades de estudo e trabalho.

Assim como seus colegas, Vânia pretende terminar a graduação e retornar como professora, preenchendo uma lacuna de representatividade na educação infantil.

“Eu sempre tive esse olhar da necessidade na minha aldeia de ter professores indígenas. Até entrei em uma universidade a distância, só que pela falta de recurso eu não consegui concluir. Quando surgiu essa oportunidade na Ufes de fazer inscrição, eu enxerguei como uma porta aberta”, contou Vânia.

Tanto Vânia como Ariberto pretendem voltar para suas aldeias e trabalhar com educação logo após suas formaturas, que deve acontecer em 2028.

Para Gefferson, o retorno destes profissionais para os territórios indígenas deve gerar um sentimento de pertencimento que, às vezes, pode faltar nas salas de aula dos primeiros anos de educação.

O indígena trabalhar com o indígena é essencial para o fortalecimento da nossa cultura. Também é essencial para que quando nossos indígenas saiam das aldeias, estejam fortalecidos e comprometidos com suas próprias vivências.

Gefferson Pereira Marques, coordenador.

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