No Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado nesta sexta-feira (29), a médica Maria Vera Castellano, membro da Comissão Científica de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), reforça a urgência de alertar a população sobre os riscos dos cigarros eletrônicos, também conhecidos como vapes. Apesar de terem sido apresentados como alternativa mais segura ao tabaco convencional, estudos recentes apontam que os dispositivos estão associados ao crescimento de doenças graves em pessoas cada vez mais jovens.
“Temos os danos cardio-circulatórios, aumento do número de pacientes com infarto agudo do miocárdio e com derrame, o acidente vascular cerebral, que começa a ocorrer em uma faixa bem mais precoce”, afirma Castellano, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Segundo um alerta dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), publicado em janeiro deste ano, nenhum cigarro eletrônico é seguro: a maioria contém nicotina, substância altamente viciante e prejudicial para gestantes, fetos e jovens, além de liberar aerossóis com metais pesados, compostos cancerígenos e aromatizantes como o diacetil, ligados a doenças pulmonares. O órgão também alerta que a nicotina pode prejudicar o desenvolvimento cerebral até os 25 anos, afetando atenção, aprendizado, humor e controle de impulsos.
Para a médica, o avanço do uso preocupa. De acordo com um estudo do Instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), publicado em 2024, o número de usuários de cigarros eletrônicos cresceu de 500 mil em 2018 para mais de 2,8 milhões em 2023 no Brasil. “Foi um aumento significativo”, avalia.
Ela lembra que o cigarro eletrônico começou a se espalhar pelo mundo a partir de 2009, justamente quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a primeira recomendação proibindo o uso no Brasil. “Quem produz o vape muitas vezes são as indústrias do tabaco. Philip Morris e todas as outras que existem aí. Então, em muitos países, inclusive no Brasil, começou a haver uma queda no consumo do cigarro componente ou tradicional, como dizemos. E nesse meio tempo surgiu o cigarro eletrônico”, conta.
Atrativo para jovens
Castellano explica que os dispositivos se tornaram populares por conta da tecnologia e da variedade de sabores, que vão de brigadeiro a tapioca. “Isso atrai o jovem, além da questão tecnológica. Agora, realmente, os aromatizantes também causam danos à saúde. Isso já está bem estudado”, alerta.
Entre os riscos, ela cita a presença de metais que podem se depositar no pulmão e causar doenças intersticiais. Um dos casos mais conhecidos é o do aromatizante usado para dar sabor de pipoca doce, indica. “Existe um elemento químico que já havia causado vários casos de doença em quem trabalhava na fabricação de pipoca de micro-ondas. Passou a ser usado também como aromatizante e causou o mesmo tipo de dano, que é uma doença que acomete todo o pulmão”, revela.
Problema de saúde pública
Para a pneumologista, a resposta ao avanço dos vapes deve ser coletiva. “Eu acho que a educação deve começar inclusive na infância, alertando sobre o que são esses dispositivos e o que você vai estar inalando para dentro do seu pulmão. (…) Nós tivemos um congresso na semana passada. E lá foi falado muito sobre a importância de termos também influenciadores, pessoas que atinjam o jovem e que se aproxime dele para que essa discussão ocorra realmente”, diz.
Ela reforça que os impactos respiratórios e cardiovasculares limitam a vida de quem usa os dispositivos. “Isso vai limitar a atividade física, vai impedir a pessoa de realizar suas atividades normalmente. Ela vai ter falta de ar, que é um dos piores sintomas que pode acontecer”, ressalta.
“Eu acho que [o uso dos cigarros eletrônicos] é um problema de saúde pública. E nós devemos usar de todas as formas para informar e alertar a população”, conclui.
Para ouvir e assistir
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