De 17 a 26 de outubro de 2025, Porto Alegre receberá a primeira edição do Festival de Teatro Caminhos Periféricos, que ocupará bairros da zona leste da Capital com dez apresentações teatrais e atividades formativas. A iniciativa é idealizada por Alex Pantera, da DNÁfrica Produções Culturais, em coprodução com a Terreira da Tribo Produções Artísticas e Pascal Berten. O projeto conta com financiamento da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, por meio do edital SEDAC nº 26/2024 – PNAB RS – Artes Cênicas.
Inscrições abertas
As inscrições para participação no festival estão abertas até 5 de setembro e podem ser feitas por artistas e grupos de todo o Brasil. Os interessados devem enviar suas propostas de espetáculo por meio do formulário disponível no perfil da DNÁfrica Produções Culturais no Instagram. Também há um link direto para inscrição.
O processo de seleção vai contemplar oito espetáculos nacionais, que se somarão a dois grupos internacionais convidados, totalizando dez apresentações. Cada grupo pode inscrever até duas propostas e ser contemplado com ambas. O resultado será divulgado em setembro.

Origem do projeto
O festival tem como ponto de partida a trajetória de Pantera na Escola Popular de Teatro da Terreira da Tribo, onde participou de um projeto que utilizava a linguagem teatral como ferramenta de debate social. “Nasce de uma experiência que eu vivi, durante meu período de formação na Escola Popular de Teatro da Terreira da Tribo, que era um projeto chamado o Teatro como instrumento de discussão social”, recorda.
Esses trabalhos eram apresentados em bairros como Bom Jesus, Humaitá, Sarandi e Restinga, sempre a partir de um ano de pesquisa e montagem. Pantera relembra o impacto daquelas experiências comunitárias: “As comunidades enchiam [os espaços] e ali naquele momento tinha uma identidade muito grande, daquelas pessoas que são da comunidade fazendo teatro e comunicando, abraçando, estando todo mundo muito perto”.
Identidade periférica e diversidade social
O festival busca trazer à cena experiências que expressem identidades culturais periféricas, abordando dimensões como cor, musicalidade, espiritualidade, dramas e alegrias coletivas. Para Pantera, o objetivo é valorizar a voz de grupos que seguem invisibilizados no espaço público.
“Eu percebi que nós temos também nas comunidades os indígenas, os negros, os não negros, os gays, as trans, todo esse universo, que acabam sendo pessoas invisíveis e que não têm muitas vezes a sua voz, os seus anseios, as suas ideias, as suas reflexões colocadas no âmbito dessa grande cidade, dessa grande metrópole que é a cidade de Porto Alegre.” A proposta é aproximar arte e cotidiano, estimulando debates sobre as condições de vida e os desafios enfrentados pelas comunidades.

Programação e territórios
As atividades estarão concentradas em três regiões: Bom Jesus, Morro da Cruz e Morro Santana. Além das apresentações, estão previstas duas oficinas, conduzidas por grupos convidados – uma no bairro Bom Jesus e outra na Terreira da Tribo.
Um cortejo com coletivos de teatro de rua também está programado, representando simbolicamente os “caminhos” percorridos pela cultura nas periferias. Pantera define o encontro como “uma grande celebração teatral periférica na periferia, fazendo da cidade de Porto Alegre o palco”.
A comissão de curadoria priorizará produções de caráter periférico, afro-brasileiro, indígena, feminista e LGBTQIA+, além de valorizar a tradição do teatro de grupo. Para Pantera, este formato é central: “O teatro de grupo é resistência. É assim que vem a minha formação, num grupo de teatro, e a minha experiência na vivência com diversos outros grupos, em festivais”.
Ele acrescenta: “O festival pode vir a estar fomentando grupos que virão a ser longevos e até mesmo acolhendo grupos longevos já, que poderão estar trazendo a sua experiência da construção do teatro crítico periférico para dentro do festival”.
Desafios e logística
Segundo Pantera, um dos principais desafios está na avaliação dos espetáculos inscritos, tarefa atribuída à comissão técnica. “O principal desafio vai ficar por encargo dessa comissão, que tem larga experiência em montagem de festivais e de avaliação”, explica. Aspectos como viabilidade logística e consistência estética das propostas deverão ser considerados no processo de seleção.
Mobilização comunitária
A organização do festival também prevê articulação direta com lideranças e coletivos locais. No Morro da Cruz, as ações serão realizadas em parceria com o Galpão Cultural e a artista Negra Jaque, com duas apresentações programadas – no Mirante e no próprio Galpão. No Morro Santana, a mobilização é conduzida por Letícia e o coletivo Mães da Periferia, que já iniciaram reuniões para definir agenda e horários.
“A mobilização nesse momento está na produção mesmo. Logo em seguida vai partir para a divulgação na comunidade, eles estarem sabendo quem serão os espetáculos que vão se apresentar”, explica Pantera. A valorização de experiências locais também faz parte do festival. Ele cita o exemplo do jovem Afronario, do Morro da Cruz, que participou do Festival de Gramado com dois curtas e organiza o samba do Quiquito no Mirante.

Democratização cultural
O festival se propõe a enfrentar processos de elitização da cultura ao criar condições para o acesso popular à arte. Para Pantera, a iniciativa tem o papel de recuperar a presença da periferia como produtora e protagonista das artes cênicas: “O projeto do Festival de Teatro Caminhos Periféricos pretende trazer essa identidade da arte do teatro para dentro da periferia, a partir das suas origens, que também na maioria das vezes esses espetáculos que a gente vai estar propondo são construídos por agentes da periferia”.
A expectativa é que o público não apenas assista, mas se identifique e interaja criticamente com os espetáculos. “Eu espero que o público se identifique com cada espetáculo, que em algum momento ele vibre, reflita, questione e, além de se identificar, se provoque para esses experimentos”, afirma o idealizador.
O objetivo é que a experiência desperte o desejo por mais produções com identidade periférica. “O projeto Caminhos Periféricos, Festival de Teatros Caminho Periférico, ele não pode ficar numa única edição”, projeta Pantera.
Serviço e informações
As informações sobre a programação e oficinas serão divulgadas nas redes sociais da DNÁfrica Produções Culturais, no perfil do Instagram.
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