Lei da Reciprocidade é resposta ‘prudente e correta’ ao tarifaço de Trump, avalia economista

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou o processo para aplicar a chamada Lei da Reciprocidade Econômica contra os Estados Unidos, após a decisão do presidente Donald Trump de sobretaxar em 50% produtos brasileiros. A medida, aprovada recentemente pelo Congresso, autoriza retaliações em casos de abusos comerciais.

Para o economista Paulo Kliass, ouvido no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, a iniciativa é necessária diante da postura de Washington. “O governo brasileiro teve a medida prudente e correta de ter a legitimidade apoiada pelo Congresso, através de uma lei, para estabelecer essa medida de retaliação, de reciprocidade. O presidente Lula, então, deu início [ao processo]. Ele não adota, da noite para o dia, essa medida. Ele está sendo cauteloso porque a coisa está andando e precisamos de muita cautela”, analisa.

Segundo Kliass, Trump desmontou instrumentos multilaterais que poderiam resolver a disputa, como os tribunais de apelação da Organização Mundial do Comércio (OMC). “O problema é que Donald Trump, entre as inúmeras medidas arbitrárias, unilaterais, criminosas que ele vem adotando está a retirada do financiamento que os Estados Unidos dão para o sistema da ONU [Organização das Nações Unidas] e também para a OMC. Ele acabou praticamente com a capacidade de funcionamento da OMC”, pontua.

Para o economista, a Lei da Reciprocidade não é uma medida extremada, mas um mecanismo para forçar a negociação. “Não é uma medida pra agredir, etc. É uma medida pra chamar para a mesa de negociação e para mostrar que aqui tem um país que é soberano e que não aceita a ingerência externa sem justificativa, como é o caso dessa [taxação] de Trump”, avalia.

Apesar da abertura do governo brasileiro para retomar o diálogo, na avaliação do economista, a Casa Branca não demonstra interesse em conversar com o Brasil. “O que efetivamente está claro é que da parte, pelo menos, do presidente Trump, da Casa Branca, não há interesse algum em estabelecer alguma fonte de negociação neste momento”, expõe.

O especialista ressalta que medidas de retaliação podem atingir setores estratégicos para empresas norte-americanas instaladas no Brasil. “O Brasil tem, por exemplo, a questão das big techs, que Trump sempre diz que são intocáveis. Tem a remessa de lucro das empresas estadunidenses no Brasil, que são enormes. As petroleiras, que vivem ganhando concorrências para explorar petróleo. Tem as patentes, de uma maneira geral, na área da indústria farmacêutica”, lista.

Multilateralismo em disputa

Kliass lembra ainda que o embate não se resume às tarifas comerciais, mas envolve a disputa pela hegemonia global. “Os Estados Unidos sabem que ao perder a hegemonia que exerceram durante décadas, e isso está sendo transferido de alguma maneira pra China, eles identificam no bloco do Brics (…) uma ameaça à hegemonia do dólar no mundo. Se ele está com essa estratégia e quer pegar o Brasil, porque o Brasil atualmente está exercendo a presidência do Brics, o que ele também está obtendo é um tiro no próprio pé”, afirma.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

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