
Nos últimos anos, observou-se um aumento expressivo no consumo de suplementos alimentares no Brasil, acompanhando uma tendência global que reflete a crescente busca por saúde, performance física e bem-estar.
O mercado brasileiro oferece uma gama variada de produtos — desde vitaminas e minerais até proteínas, aminoácidos, termogênicos e outras substâncias que prometem ganhos rápidos de desempenho, emagrecimento acelerado ou melhora da imunidade.
Entretanto, apesar da popularidade e da facilidade de acesso, o uso indiscriminado de suplementos alimentares, especialmente quando realizado sem acompanhamento profissional qualificado, pode representar riscos concretos e graves à saúde.
O uso de suplementos pode não ser inofensivo
Ao contrário da crença popular, o consumo de suplementos não é um hábito necessariamente inofensivo. Muitos tendem a associar suplementos a produtos naturais, o que não significa ausência de riscos.
Por exemplo, o excesso no consumo de vitaminas lipossolúveis — aquelas que se acumulam no organismo e não são eliminadas facilmente, como as vitaminas A, D, E e K — pode levar a quadros de toxicidade.
Hipervitaminose A, por exemplo, pode causar sintomas que vão desde náuseas e tontura até danos hepáticos graves e alterações no sistema nervoso central. Similarmente, minerais como ferro e selênio, apesar de essenciais, quando ingeridos em doses elevadas e sem controle, podem provocar intoxicações, comprometendo funções hepáticas, cardiovasculares e neurológicas, aumentando o risco de complicações graves.
Interação com outros medicamentos
Além dos efeitos diretos do excesso, outro fator preocupante é a possibilidade de interação entre suplementos e medicamentos para o tratamento de doenças crônicas ou outras condições clínicas.
Essa interação pode reduzir a eficácia dos fármacos ou potencializar efeitos adversos, sobretudo em populações vulneráveis, como idosos, gestantes, crianças e pessoas com doenças crônicas.
É fundamental lembrar, que a avaliação da necessidade e a prescrição da suplementação devem ser sempre individualizadas, levando em consideração o histórico clínico do paciente, seus hábitos alimentares e resultados de exames laboratoriais específicos.
O uso inadequado pode mascarar outros sintomas
A prescrição inadequada ou a automedicação com suplementos podem mascarar sintomas importantes ou piorar quadros de saúde já existentes, retardando o diagnóstico e o tratamento adequado.
O processo de suplementação, portanto, não se resume ao simples ato de “preencher lacunas nutricionais”. Trata-se de compreender o metabolismo do indivíduo em sua complexidade, respeitando suas condições particulares.
Outro equívoco comum está na crença disseminada de que “se é natural, não faz mal”. Essa ideia, infelizmente, tem levado muitos consumidores a utilizarem suplementos e produtos naturais sem nenhum critério, acreditando que, por não serem medicamentos, são completamente seguros. No entanto, muitos suplementos não substituem uma alimentação equilibrada e um estilo de vida saudável, que são a base para a manutenção da saúde e prevenção de doenças.
O uso de suplementos deve ser entendido como uma complementação que, quando indicada corretamente, potencializa os benefícios da dieta, mas jamais deve ser uma prática isolada.
Falta de regulamentação e fiscalização
A situação se agrava diante da falta de regulamentação rigorosa e fiscalização em parte do mercado de suplementos. Produtos comercializados sem controle adequado trazem riscos adicionais, como contaminação por substâncias proibidas, dosagens erradas e até fraudes na composição.
O marketing agressivo, aliado à propagação de informações equivocadas e muitas vezes falsas nas redes sociais e outras mídias digitais, contribui para a banalização do consumo desses produtos, transformando a suplementação em um hábito disseminado, mesmo na ausência de real necessidade.
Essa realidade está profundamente ligada a questões sociais e culturais contemporâneas, em que a pressão pelo corpo ideal, a busca por soluções rápidas para problemas de saúde e a valorização excessiva da estética física fazem com que muitas pessoas adotem práticas sem a devida orientação técnica. A suplementação alimentar, dessa forma, muitas vezes reflete um comportamento impulsionado por tendências de consumo e modismos, mais do que por necessidades reais do organismo.
O papel do profissional da saúde
Diante desse cenário, é fundamental que profissionais da saúde — especialmente nutricionistas, médicos e farmacêuticos — assumam o papel de informar, orientar e conscientizar a população acerca dos riscos e benefícios da suplementação alimentar.
A segurança alimentar passa necessariamente por escolhas conscientes, baseadas em evidências científicas e na avaliação criteriosa do indivíduo, não apenas por adesão a promessas de resultados rápidos e milagrosos.
O cuidado com a saúde é um ato que exige responsabilidade, escuta atenta, empatia e individualização das recomendações. O planejamento de uma suplementação adequada deve ser um processo integrado ao acompanhamento clínico e nutricional, de modo a garantir a eficácia e a segurança do tratamento, evitando consequências negativas para o paciente.
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Em suma, a suplementação alimentar, quando utilizada sem a orientação profissional adequada, pode ser tão prejudicial quanto a deficiência nutricional. A automedicação, impulsionada por informações errôneas e interesses comerciais, coloca em risco a saúde pública, demandando uma atuação firme e contínua dos profissionais da área da saúde e das políticas públicas.
Mais do que oferecer suplementos, é preciso promover educação nutricional de qualidade, fortalecendo o vínculo entre conhecimento científico e prática cotidiana para que o uso desses produtos ocorra de maneira segura, consciente e eficaz.